


Tupambaé, é uma cidade do interior do Uruguai, localizada no departamento de Cerro Largo, na fronteira com o Brasil, com no máximo 2.000 habitantes.
Grande parte da população de Tupambaé tem alguma ascendência africana, mas sempre foi “melhor” varrê-la, escondê-la e usá-la para marcar e marginalizar todos nós que temos traços e cores de pele que tornam nossa ancestralidade visível. Vivemos com racismo e homofobia estrutural.
Tenho vinte e três anos, desde os dezoito sinto que sou uma constante mutação, tem sido um processo introspectivo que me permite aprender com isso e evoluir. Habitar outros territórios me levou a ocupar novas realidades e perspectivas com meu corpo.




OCUPAÇÃO VISUAL-CONCEPTUAL DE:






Mudar e me conhecer, também me levam a me amar e me encontrar, voltar e entender de onde venho, me respeitar.
Com o tempo entendi que os problemas claramente não eram de uma criança que tentava viver sua infância em liberdade, mas do sistema gerado por uma sociedade branca heterocis, que nos singulariza e nos classifica.
Sempre que me lembro dessa jornada só consigo sentir admiração pelo meu eu infantil, tendo passado por muitas situações quando criança e tendo que curá-las sozinha, por medo de não ser ouvido ou de que o problema pudesse ser minimizado.
Viver com esse estado de ego é uma parte nova de todo esse processo, os negros historicamente foram forçados a acreditar que não temos o direito de nos sentirmos tão dignos quanto os brancos.
Aprender a conviver com tudo isso durante minha infância e adolescência foi motivo de momentos horríveis, que promoviam o ódio a si mesmo, a ponto de não querer ser como sou, foi uma das coisas mais libertadoras.
Quando conseguimos entender que nosso nariz é bonito, que nossas manchas são a coisa mais forte que podemos ter, que foram uma ferramenta para quem veio antes de nós, que a cor da nossa pele é uma das melhores representações de nós mesmos,
que devemos sempre capacitar, entender tudo isso é a coisa mais libertadora que me aconteceu.
Para mim, ser negro hoje, impulsiona o desejo de que todos aqueles que estão passando pelo mesmo que eu possam aprender a amar e se conectar com a construção de uma Afrotranstopia.


Quando estamos nesse processo de descoberta de nós mesmos, é impossível chegar à nossa própria história sem buscar o coletivo. Nessas raízes da terra emaranhadas nos restos de culturas originárias e expropriadas, também as culturas seqüestradas e trazidas para cá. Descolonizar Tupambaé como território de conhecimento ancestral para quem vive (no qual moro) e não privar quem vai habitá-lo.
A branquitude é privilegiada mesmo com o fato de conhecer a origem de suas raízes, suas famílias e sua matriz cultural.
Nós, como negros e racializados, devemos nos contentar em entender o que as gerações mais velhas, que ainda estão vivas, podem nos dizer e a partir dessa história viva realizar uma busca que muitas vezes pode acabar sendo insuficiente para reconstruir nossa Afrontranstopia, nosso passado, nosso presente e nossa projeção futura.



é um ilustradore afro-uruguaie nascide em 1998 em Tupambaé e
formou-se em 2025 com o título de Bacharel em Design de Comunicação Visual na Faculdade de Arquitectura, Design e Urbanismo de Montevideu. Em 2022 Mario Lópes convida-e a ocupar visualmente o site conceptual Afrotranstopia.
Com o seu trabalho Bruno leva-nos numa viagem ancestral seguindo os seus próprios passos, uma narrativa afrotransutópica de reencontro com o território que habitava quando criançe, as suas reflexões sobre a sua auto-percepção como jovem negre, não binárie e latino-americane.
Juntamente com o seu irmão mais novo, gravam os sons de Tupambaé, transportando-nos para um espaço cheio de pássaros, folhas e um sopro de inocência.
As ilustrações auto-referenciais e oníricas parecem evocar as gerações passadas, habitam hoje a pele de artiste e sonham com um futuro baseado no reconhecimento e reparação, uma ode à cura e ao empoderamento da negritude■
